O sindicato chega ao digital

A precarização do trabalho no mundo está ligada à força da indústria digital hoje

Funcionários do Kickstarter, a maior plataforma de financiamento coletivo da internet, votaram na terça-feira para formar um sindicato. É a primeira grande empresa de tecnologia a fazê-lo. A decisão tem muitos impactos e aponta para uma transformação política que ocorre nos EUA que, não por acaso, está diretamente relacionada ao Vale do Silício.

O que os funcionários querem é algo novo, ainda não testado. Querem influir em decisões da companhia. O processo de sindicalização, nos EUA, segue um rito particular. Um grupo de colegas numa empresa procura o Departamento Trabalhista estadual e uma central sindical. É preciso que a maioria dos servidores vote a favor, e este processo é acompanhado tanto pelo governo quanto pela central. Não é sem riscos. Dois dos organizadores foram demitidos pela Kickstarter, que alegou problemas de performance. O Google notoriamente demitiu inúmeros funcionários que organizavam protestos por questões internas.

Mas, a partir do momento em que um sindicato é formado, a empresa passa a ter de negociar coletivamente as regras de contratação e demissão. A questão é que, por tradição, as negociações sindicais tratam disso: isonomia salarial, benefícios, horas por trabalhar. Por isso que, em geral, sindicalizados são os funcionários de fábricas, hotelaria, restaurantes, funções que envolvem salários mais baixos. Nada na lei obriga a empresa Kickstarter a compartilhar com os funcionários suas decisões estratégicas. Mas eles vão tentar.

O Kickstarter, embora símbolo da nova economia, fica em Nova York, não no Vale. No Vale, conflitos entre funcionários e as gigantes digitais têm aumentado constantemente. A cultura de startups, com salas de videogame e restaurantes bacanas ainda existe. Mas acusações de assédio sexual e moral, assim como questionamento de políticas internas das companhias, aparecem com força. O Google tem enfrentado inúmeros levantes internos. Até aqui, nenhuma delas organizou seu próprio sindicato.

Há um outro nível neste debate. Conforme relações trabalhistas começam a se tornar discussões cotidianas entre engenheiros de software e designers de interface, a indústria digital chega a sua maturidade. Esta já é a indústria que dá tração à economia mundial, além de ser responsável pela transformação de todas as outras indústrias.

A precarização do trabalho no mundo, assim como a concentração dos negócios em poucas empresas gigantescas, está diretamente ligada a este movimento. E quando pipocam de país em país levantes populares, reclamando das transformações econômicas, tudo tem a ver com esta transição do mundo analógico para o novo. Ele traz junto, ao menos por enquanto, a precarização da vida de muitos.

É função histórica da direita mover o crescimento econômico adiante, assim como é função histórica da esquerda lembrar que este crescimento deve ser compartilhado por todos. Não é coincidência que, pela primeira vez em décadas, lidera as primárias democratas um candidato que se declara socialista — o senador Bernie Sanders. Ele, assim como a senadora Elizabeth Warren, questionam a cartelização de várias indústrias. A pauta do novo trabalho está posta.

Quer dizer: está posta lá. No Brasil, a direita no poder é anti-ciência e anti-China. Está, portanto, muito distante do caminho para o qual a economia do mundo vai. Quer manter o Brasil como fornecedor de commodities, não como gerador de patentes de alto valor. A esquerda, por sua vez, luta pela manutenção de regras trabalhistas incompatíveis com a nova estrutura econômica, ao invés de buscar regras de proteção para quem vive no mundo real.

Fonte: Pedro Doria – Estadão

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